Não Quero Esmolas!

Só quero seu reconhecimento!

Vamos a mais um post “transcedental” de uma mente em plena ebulição. A questão é que preciso vir aqui para demonstrar em público minha mudança de pensamento. Não faz muito tempo, escrevi alguns posts criticando a atitude do brasileiro em não colaborar com o opensource. Obviamente, eu me referia mais à ajuda em código, documentação, reportar bugs e etc. Mas, claro, não estava deixando de lado a questão financeira. Aos desenvolvedores, cabe ajudar com as primeiras questões que falei. Aos “consumidores”, ajudar financeiramente aqueles que fizeram o aplicativo.

Na maioria das vezes, as pessoas baixam aquele aplicativo que é grátis (sim, a maioria não sabe o que é opensource e não tem interesse em saber) e não estão interessados em reconhecer o trabalho daquele que fez o aplicativo. Este era meu pensamento. Esta era minha crítica. Mudei de opinião quanto a esta questão. Três fatores ajudaram nisto: o EncomendaZ, um comentário que Rodrigo Fagundes deixou no post anterior e conversas com colegas do trabalho, principalmente Serge Rehem. Primeiro, vamos ao comentário. Sugiro ler o post, caso queira se contextualizar:

Sobre o leite em pó, eu não acho que compramos bem – compramos o que estamos acostumados. O fato de o fazermos sempre não convalida a decisão, mas só perpetua o costume.

A parte que mais me tocou foi “perpetuar o costume”. Talvez eu tenha sido muito rígido em minhas primeiras considerações sobre o assunto e me parece que a atitude desta grande maioria das pessoas não é a questão de não reconhecer, mas o seu cotidiano e alguns costumes que não lhe permitem perceber que alguém trabalhou naquele aplicativo livre e que existe a opção de reconhecer o trabalho dela. Conforme eu disse, a grande maioria não sabe o que é opensource. Sabe o que é grátis. E se é grátis, então ninguém liga que eu use sem pagar. Se é grátis, é porque esta pessoa não precisa dinheiro ou não o quer. Mas isto não torna estas pessoas insensíveis ao ponto de não conseguirem reconhecer o trabalho alheio.

Aqui também entra a questão da DOAÇÃO. Porque a doação funciona muito pouco? Digo também por experiência própria. O VeículoZ tem um botão DOAR na sua página principal e está lá bem destacado. Com mais de 1200 downloads da versão PalmOS e mais de 1100 da versão Windows Mobile, nunca recebi 1 centavo de doação. Parece-me que o comportamento das pessoas é entender de que eu não preciso do dinheiro. É grátis. Eu não preciso do seu dinheiro, só estou mendigando. E ninguém gosta de mendigo pedindo dinheiro. Conclusão: doação é quase um “por favor, me ajude!”. E “por favor, me ajude” funciona muito pouco.

E o EncomendaZ? O que ele fez mudar em mim? Propagandas à parte, eu resolvi “inventar” e não seguir o modelo padrão de venda, tal qual: fixar um preço e vender. Não. Pensei comigo mesmo: vamos deixar as pessoas usarem e pagarem o quanto elas acham que é justo. Isto não é novidade. No exterior existem lojas, restaurantes e outros serviços que são assim. Admito, contudo, que estava pessimista quanto ao retorno. Eis que fui surpreendido positivamente. E muito. A tática que usei foi mandar o aplicativo para um grupo de cerca de oito pessoas que me enviaram sugestões de melhoria. E, para receber um feedback legal, ENTREGUEI uma licença grátis para estas pessoas. Duas delas acessaram o site, leram o conteúdo e pagaram mesmo assim. E, até hoje, o valor destas duas foram os mais altos. Entenda, as pessoas que tinham a possibilidade de não pagar, foram as que pagaram o maior valor até o momento. Fiquei realmente sensibilizado com a atitude destas duas pessoas. E elas me ajudaram a mudar um pouco minha linha de pensamento.

Isso me fez pensar um pouco mais sobre meus conceitos. Principalmente meu pressuposto de que as pessoas não ajudavam porque não queriam. Talvez não. Aliás, realmente estou começando a acreditar que elas não pagavam, pois não foram sensibilizadas o suficiente. Nestes dias rolaram altos papos com Serge sobre o assunto. E uma das questões é, também, transferir para a pessoa o poder de escolha até mesmo do preço do produto que ela vai comprar. Porque eu tenho que definir? Porque não permitir para a pessoa decidir se aquele aplicativo, ou até uma obra artística, vale algo?

Certamente, muitos vão me dizer que é ilusão. Que a maioria das pessoas vai pagar muito pouco ou até mesmo nada. Mas, eu acredito que não. Falta sensibilizá-las. Claro que há as pessoas que só querem tirar vantagem. Mas elas iriam tirar vantagem de você seja lá qual for a situação. Ela poderia baixar as músicas de sua banda pela Internet de qualquer jeito. Elas iriam procurar quem tem seu CD e copiar as músicas. Elas iriam procurar seu aplicativo em um site de WareZ. Iriam tentar burlar a segurança dele. Mas, e se elas tivessem a oportunidade de pagar 0,01 centavo de algum lugar e baixar estas mesmas músicas ou aplicativos que ela já iria piratear de qualquer forma? Eis a questão. Aí está uma mudança de atitude. O mundo também não é só feito de pessoas más. As boas podem equilibrar a balança.

Para concluir, porque o título “Não Quero Esmolas!” e o subtítulo “Só quero seu reconhecimento”? Eu abracei esta ideia. O que eu produzir entrará no esquema PAGUE QUANTO ACHAR QUE VALE, PAGUE QUANTO QUISER. Até mesmo, não pague. Mas tentarei sensibilizar você de que não sou uma empresa. Sou eu, Marlon. Humano, que cansa e sente dor de coluna na frente do computador para fazer algumas coisas que poderão ser úteis para você. E, se forem realmente úteis, reconheça, da forma que achar melhor, o quanto vale meu trabalho: Não quero que você pague além do que acha que deveria. Muito menos, quero sua caridade ou esmola. Quero seu reconhecimento.