Outliers – Fora de Serie

Comecei a ler um livro bem interessante e já no primeiro capítulo, algumas coisas chamaram minha atenção. Estou falando do livro Outliers, Fora de Série. O autor, Malcolm Gladwell, apresenta sua visão sobre a questão do sucesso das pessoas. Por que algumas conseguem o sucesso e outras não? A resposta para mim sempre foi bastante simples: elas fizeram por merecer. Mas, será que a resposta é tão simples? Não há outras variáveis em jogo e que não temos conhecimento? Ele sustenta que sim. E que fazem muita diferença.

Um tipo de leitura que me agrada bastante são as biografias. Sempre considerei uma forma muito boa de ver como pessoas conseguiram ser o que são, seja nos esportes, finanças, vida pessoal… Eu sempre considerei que tudo que elas tem é fruto exclusivamente de seus próprios esforços. Claro, eu não descartava que sempre há pitadas de sorte, mas o esforço pessoal sempre esteve no topo. Sempre falei também que quem tem sorte atrai mais sorte. Quem tem azar, sempre atrai mais azar. Sem nenhuma base científica para essa afirmação, é claro. 🙂 Mas sempre tive esse feeling. Gladwell esclarece um pouco sobre este entendimento.

Malcolm trouxe, para mim, uma nova visão sobre essa questão. E que achei muito interessante. Nossos sistemas, da forma como são concebidos, já são preparados para determinar quem terá sucesso ou não, independente de suas habilidades pessoais. Parece sem sentido, mas o autor inicia com alguns exemplos interessantes que sustentam sua teoria. Ele destaca a lista de jogadores de diversos esportes. Vou citar somente a lista de jogadores de Hóquei do Canadá. Ele observou que a grande maioria, mas grande maioria mesmo, nasceu entre janeiro e março.

A explicação é bem simples para isso: a data limite para ingresso em uma liga é em janeiro. Assim, se o filho de uma pessoa completa 10 anos em janeiro, ela será logo selecionada, passará a treinar e competir com jogadores mais experientes, terá acesso a treinamentos mais fortes e especializados. E se você nasceu em agosto? Estará 7 meses defasado com relação a quem nasceu em janeiro. O resultado disso é que os grandes jogadores de hóquei, em sua maioria esmagadora, nasceram nos primeiros meses do ano.

É fácil entender isso. Observe que este mesmo que nasceu em janeiro já estará em vantagem para a seleção da liga imediatamente superior. Ele já larga com vantagem só por ser mais velho. A constatação ainda mais espantosa da questão é que se você nasceu em dezembro, mora no Canadá e quer ser um astro do hóquei, sinto muito, seu destino já está definido: você não será. Ou terá que “vender” as tripas para ser.

É uma constatação bem interessante e que me fez refletir sobre o assunto. De fato, ele observou que isso acontece em tudo na vida. Já existem regras, em nossos sistemas, que “determinam” quem terá mais chances de sucesso, comparada às demais. Seja no ensino escolar, nas Olimpíadas, Ligas… Aí vem aquela questão que é semelhante ao que eu pensava sobre a sorte: o rico tende a ficar mais rico, o pobre mais pobre, o sortudo a ter mais sorte e por aí vai. É a vantagem cumulativa. E isso traz problemas? O autor acredita que sim. Neste caso, específico do hóquei, se está deixando de lado uma enorme quantidade de talentosos jogadores de fora, só pelo de fato de eles terem nascido entre agosto e dezembro.

Temos uma cultura de supervalorizar os feitos pessoais, principalmente nas tais biografias. Mas acabamos esquecendo de verificar estas demais variáveis. Meu ponto de vista é que ainda assim vai depender de seu esforço pessoal para chegar lá. Claro, a tal pessoa que nasceu em dezembro terá que se esforçar muito mais do que aquela que nasceu em janeiro, mas também pode alcançar o estrelato. E é importante, para isso, ter o conhecimento destas informações. Ainda estou nos primeiros capítulos, mas já valeu os 19 reais investidos!