Comunidades ou Terceirização ?

Utilizarei meu indicador direito para tocar em um assunto delicado: como vejo a participação e o entendimento de uma boa quantidade de brasileiros, e aí incluo principalmente as empresas brasileiras, com o software livre e suas comunidades. Antes gostaria de reforçar uma diferença conceitual que enxergo, apesar de minha miopia. A visão de comunidade, e a ajuda a esta comunidade em prol de um bem em comum, e uma visão particular sobre um princípio específico que está incluído no software livre, e que citarei nas próximas linhas para tentar que vocês leiam mais um pouco deste (des)interessante post.

Vou lhes explicar. A questão é que Richard Stallman e os idealizadores do software livre não condenam, conforme meu minguado conhecimento sobre o assunto, que um software seja copiado, seguindo as regras da licença GPL (ou similares), e modificado. É o fork. O fork não é condenável nesta visão. Ao contrário, é até, de certa forma, motivado. A ideia de comunidade, embora seja no software livre onde mais se destaca na nossa área, enseja um comportamento diferente. Você tem uma necessidade que já é parcialmente atendida por um software sustentado por uma comunidade? Então, não faça um fork. Ajude! Seja agregador. Não seja apenas um cliente do software livre, seja um colaborador. Não faça um fork, pois você poderia estar ajudando a solução atual a se tornar ainda melhor.

Mas, vou voltar mais incisivamente ao assunto do tópico. Uma questão está mais do que clara para mim. Mais até do que Michael Jackson quando lançou o clipe Black and White. Nossas empresas estão pouco se importando para a ideia de comunidades. A verdade é clara e, neste caso, não está lá fora: as comunidades de softwares livre servem apenas como uma forma de terceirizar um serviço do qual a empresa não se vê com competência ou fôlego para fazer. Vou mais além, se há fôlego para fazer, o faz sem ajudar os criadores da ideia inicial, mas criando sua própria solução a partir da ideia dos outros. Fork!

Ainda há outra vertente. As pessoas não ajudam. Elas dizem o que está errado. O que já é algo louvável. Mas, mais louvável ainda é propor a solução. Achar o erro e já levar para os autores do software uma proposta para solucionar o problema é o que chamo de “a essência da colaboração em comunidades de software livre“. Infelizmente, é um mundo distante.

Voltando à questão dos forks: isto é condenável? Não há problemas, se você for considerar a ideia inicial de que um fork é algo normal. Mas, da forma como é feito hoje, é condenável, sim. A colaboração entre os membros de uma comunidade só tende a agregar valor para ambas as partes. A ajuda mútua sempre traz mais benefícios para ambos os lados. Quanto mais mãos e cérebros inteligentes atuando por um objetivo em comum, melhor. Só faça um fork se os autores do projeto inicial forem cabeça dura e não aceitarem ajuda externa. Antes, esvazie todas as alternativas disponíveis para você. Não havendo retorno para seus esforços, então fork neles! Mas deixe isto claro para todos, para que entendam sua motivação e não lhe encarem como um desagregador.

E porque as coisas são assim? Ainda nos falta esta cultura. E isto já vem de longe. Muito longe. O brasileiro sempre usou programas piratas e nunca sentiu vergonha disto. E isto é desde o Pentium 1, ou vai me dizer que sua cópia do Windows Workgroups era original? Oitenta por cento de chances de que não era. E o que pirataria tem a ver com isto tudo? Vou ser sincero, eu só quis deixar um gancho para dizer que as empresas brasileiras atuam como os “Piratas do Software Livre”. Você vai me dizer: seu maluco, que frase sem sentido! É, você tem razão, eu acabei de inventá-la.

E a ideia que quero passar com a frase é a seguinte: quando você usa um “aplicativo pirateado”, você está jogando fora todo esforço daqueles que suaram para lhe entregar uma solução para seus problemas. Não concorda que o software seja pago? Não use. Para mim é simples assim. Quando você não colabora com uma comunidade, se tornando apenas cliente dela, literalmente “vampirizando“, você a destrói em sua essência. É um estaca de madeira no coração desta comunidade.

Este post está enorme e vou finalizá-lo com uma resposta que alguns poderiam me fazer: e porque você ainda continua disponibilizando suas aplicações como software livre já que a maioria só quer se aproveitar disto? Uma mera questão filosófica. Eu acredito no Software Livre. O conhecimento deve ser compartilhado. O que eu aprendi, eu quero compartilhar com os outros. Embora minha visão seja, em alguns momentos, pessimista, isto não quer dizer que eu ficarei parado aguardando passivamente que as coisas mudem. E este post é um passo nesta direção.

Concorda comigo? Sim? Mais ou menos? Deixa seu comentário!